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GABRIEL GRANJEIRO: “A ALEGRIA VEM PELA MANHÔ

Gabriel Granjeiro

Gabriel Granjeiro

Fim de tarde, João chega do futebol. Mal a mãe abre a porta da casa, ele passa como um foguete para o quarto, quase derrubando a mesinha de apoio ao lado do sofá no caminho, o rosto vermelho. Ela vai até lá ver o que aconteceu e encontra o menino encolhido sobre a cama, um pequeno monte embrulhado no cobertor. Ele até tenta falar, mas não consegue, pois um soluço embaraça as palavras. Está consumido pelo choro, que já lhe inchara os olhos e agora colore as bochechas, normalmente rosadas, de um tom quase roxo.

Depois de alguns instantes, finalmente consegue explicar a razão do seu sofrimento. Antes de ser – o último – selecionado para um dos times no jogo, fora alvo de chacota dos amigos, que o chamaram de “perna de pau”. Durante a partida, ninguém lhe passava a bola e, nas poucas vezes que chegou a participar de algum lance, errou e foi criticado, inclusive por membros da equipe. Saiu de lá se sentindo um derrotado, um peso para os colegas. Um inútil.

A mãe sabia que seria difícil acalentar o filho naquela noite. O episódio de humilhação e vergonha, no universo de uma criança de 10 anos como ele, era motivo para grande tristeza. Então disse apenas: “Filho, acredite: o choro pode durar a noite toda, mas de manhã virá a alegria.” Deu um beijo na testa do menino, que não entendeu nada na hora, mas acabou adormecendo em meio aos soluços.

Despertou ainda vestindo a roupa do futebol e todo sujo. Esfregou os olhos, que agora estavam secos e notou o sol forte entrando pela janela e iluminando o quarto. O dia estava lindo, com um céu tão azul que não parecia real. No meio do caminho para a cozinha, foi surpreendido pela cachorrinha de estimação, que queria brincar. O pai, a mãe e a irmãzinha ainda bebê já estavam na cozinha, esperando por ele para tomarem juntos o café da manhã. À mesa, seu prato preferido: panquecas quentinhas. O menino sorriu. A alegria veio mesmo pela manhã, exatamente como a mãe previra.

A história acima é fictícia, e imagino que você esteja se perguntando por que eu recorreria a uma situação cotidiana e “tola”, vivenciada por um personagem criança, para introduzir nossa conversa de hoje. Em que sentido falar de uma frustração infantil pode contribuir para nosso contexto de adultos, já que, no mundo “real”, os problemas são bem maiores e complexos? Eu lhe digo por quê: porque a mensagem dessa pequena história ultrapassa a fronteira da idade e alcança todos nós, homens e mulheres maduros e experientes.

Na concepção de mundo do pequeno João, ser preterido no jogo de futebol era um grande problema, algo capaz de lhe tirar a alegria e apagar, ainda que momentaneamente, o brilho da vida. Que fique claro: a dor infantil não é menor do que a do adulto. É claro que, na vida já não tão ingênua dos mais crescidos, o choro, geralmente motivado por fatores como traição, dificuldades financeiras e frustração profissional, advém de problemas, diria, mais concretos e difíceis de resolver, mas nem por isso necessariamente piores que os que entristecem uma criança.

De qualquer forma, tanto a tristeza do menino como a do homem feito têm em comum o fato de poderem se extinguir ao raiar de um novo dia. Após uma longa noite, a luz retorna para todos nós, e as trevas nunca têm a última palavra. Lembrar-se disso dá forças para seguirmos em frente.

Você já notou como o sol da manhã é apreciado por todos? Traz aconchego e calor, que – é inegável – renovam as energias. Ora, leitor amigo, essa luz sempre vem, não importa o quão escura tenha sido a noite, não é verdade? Portanto, não é razoável temer o crepúsculo. Da mesma forma, não há por que ter receio de enfrentar adversidades, de encarar as atribulações da vida. Toda dificuldade passa e deixa aquela sensação boa de termos feito a diferença, de estarmos fortalecidos após superarmos um grande obstáculo.

Para alguns de nós, a escuridão é mais severa e parece que vai durar para sempre. Se é o seu caso, lembre-se: a alegria vem pela manhã, ainda que não a imediata. Nada pode impedir você de ser feliz, de experimentar alegrias. Afinal, a vida é feita de altos e baixos. Já dizia o psiquiatra Carl Jung: “Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas, sim, por tornar consciente a escuridão. Mesmo uma vida feliz não pode existir sem um pouco de escuridão.” Em outras palavras, a felicidade perderia o significado se não fosse equilibrada com um pouco de tristeza. Precisamos saber enfrentar as coisas conforme elas surgem, com paciência e tranquilidade, pois nada é absoluto, tampouco definitivo.

Outros, mais afortunados, têm luz própria e brilham até no breu absoluto. Mesmo esses felizardos têm de lidar com outro problema: de noite, a luz atrai insetos. E insetos incomodam, alguns picam… Há quem tenha verdadeira fobia. Ainda assim, essas pessoas têm de reconhecer o valor de enxergar o que muita gente não consegue ver por falta de luz. Insetos têm vida curta, problemas têm vida curta, mas a capacidade de lidar com eles às claras, vislumbrando possíveis soluções através das sombras faz toda a diferença.

Há, ainda, um terceiro grupo de almas que, embora não emitam luz própria, se contentam com a luz natural de elementos noturnos. De fato, como bem percebeu o escritor Ralph Waldo Emerson, quanto mais escura a noite, mais estrelas os homens veem. Podem ser iluminados por elas, pela Lua, pelos vaga-lumes… São muitas as fontes de luz, os lampejos que hão de ser aproveitados em busca da superação e da renovação. Nem sempre é preciso esperar amanhecer para superar a dor da véspera, e alguns felizmente compreendem isso.

Sei que o momento não é bom. Ao contrário, está marcado pela tristeza da pandemia do novo coronavírus e não tem nada de libertador. O que nos faz prosseguir é a esperança de um futuro melhor, é ansiar que a alegria venha pela manhã. Pode ser mais assustador para uns e outros, que talvez tenham de percorrer vales de sombras, enfrentando a doença ou a morte de alguém querido. Claro que não está sendo nada fácil, mas não tenho a menor dúvida: vai passar. Venceremos, nem que seja ao colocarmos em prática os ensinamentos de Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos do período de 1933 a 1945: “Você deve fazer aquilo que não consegue fazer.” Dê-nos uma missão, e a cumpriremos.

A luz do sol surge todas as manhãs, provando que, depois da escuridão, de momentos de pouca sorte, chega a oportunidade para o recomeço.

Então vamos juntos, sem preguiça nem indolência, cientes de que o choro, a tristeza e a doença durarão apenas uma noite. O alvorecer virá e, quando isso acontecer, deveremos retomar nossa obra com fé e amor. A cada dia, temos uma nova chance de agir diferente. A cada manhã, a vida renova as nossas possibilidades e nos dá uma nova oportunidade de fazer melhor.

Vem comigo?

“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” – Salmos 30:5

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